1Introdução
O monitoramento contínuo do crescimento de hortaliças em ambiente protegido depende de medições frequentes, baratas e não destrutivas. Na alface, cultura de ciclo curto e alto valor na produção protegida, a variável de interesse final é a massa fresca, e a literatura de horticultura estabelece que a área foliar projetada extraída de imagens é um preditor consistente dessa massa, com coeficientes de determinação tipicamente entre 0,84 e 0,97 quando há calibração com pesagens (JUNG et al., 2015; MORTENSEN et al., 2018; TAN et al., 2023). Toda essa cadeia, porém, começa por um problema de visão computacional aparentemente simples e na prática persistente: separar a planta do fundo em cada imagem, de forma robusta e com custo compatível com operação contínua. A revisão sistemática das aplicações de aprendizado profundo em alface aponta exatamente a escassez de conjuntos de dados anotados e o custo computacional como gargalos centrais da área (QIN et al., 2025), e a literatura clássica de segmentação por cor documenta há décadas a fragilidade de índices e limiares diante de variações de iluminação e fundo (WOEBBECKE et al., 1995; HAMUDA; GLAVIN; JONES, 2016).
Os modelos de fundação de segmentação alteraram os termos desse problema. A família Segment Anything transfere zero-shot para domínios não vistos (KIRILLOV et al., 2023) e, na versão SAM 3, aceita prompts de conceito em linguagem natural, recuperando todas as instâncias correspondentes a uma frase como lettuce plant sem qualquer treinamento específico (CARION et al., 2025). Em agricultura, contudo, a literatura converge para um diagnóstico duplo: o desempenho zero-shot é um ponto de partida valioso, mas raramente solução final em cenas de baixo contraste e alta variabilidade (LI et al., 2023; CARRARO; SOZZI; MARINELLO, 2023), e o custo computacional desses modelos, centenas de milissegundos por quadro e gigabytes de memória de vídeo, é incompatível com os envelopes de latência e energia dos dispositivos de borda que viabilizam o monitoramento permanente (MAGALHÃES et al., 2023; GONG et al., 2025). A resposta que se consolida é usar o modelo de fundação não como segmentador de produção, mas como professor: um anotador automático cujos pseudorrótulos, filtrados por curadoria, treinam modelos leves especializados (SUN et al., 2024; OEHME et al., 2026; ZHAO; OLIVIER; CHEN, 2025), na tradição da destilação de conhecimento (HINTON; VINYALS; DEAN, 2015) e do self-training com pseudorrótulos (XIE et al., 2020; SOHN et al., 2020).
Não se identificou na literatura, entretanto, trabalho que percorra esse ciclo professor-aluno por completo em um problema agrícola concreto: os estudos de anotação assistida param antes de treinar o aluno (OEHME et al., 2026), os de fenotipagem zero-shot não destilam o modelo de fundação em modelos de produção (WILLIAMS; MACFARLANE; BRITTEN, 2024; ZHANG et al., 2024) e os que treinam alunos degradam as máscaras a caixas delimitadoras ou não comparam alternativas de custo distinto (ZHAO; OLIVIER; CHEN, 2025; MULLINS et al., 2025). Este artigo ocupa essa lacuna. A partir de nove sequências de vídeo time-lapse de alface em cultivo indoor, capturadas em projeto de iniciação científica com câmeras fixas de baixo custo (14.257 quadros), o SAM 3.1 é empregado como professor para pseudorrotular todos os quadros por prompts de conceito; os pseudorrótulos passam por curadoria automática de qualidade e treinam três variantes de segmentação de instâncias da família YOLO11 (KHANAM; HUSSAIN, 2024) em escalas nano, média e grande, além de servirem de referência para calibrar um pipeline clássico OpenCV de limiarização em espaço de cor HSV com morfologia matemática. Os três níveis de modelo são então comparados em qualidade de máscara, latência por quadro e tamanho, sobre partições que separam grupos de sequências para evitar vazamento temporal.
A tese que o artigo demonstra é que um modelo de fundação executado uma única vez por quadro, em hardware de bancada, transfere conhecimento suficiente para que modelos duas ordens de grandeza mais baratos sustentem a segmentação contínua da cultura com alta concordância: o menor aluno treinado alcança IoU por pixel de 0,963 contra os rótulos do professor com 16,2 ms por quadro e 5,7 MiB de pesos, contra 302 ms e cerca de 5,1 GB de memória do professor. As contribuições são quatro: a instanciação completa e reproduzível do ciclo professor-aluno com o SAM 3.1 sobre séries temporais de cultivo indoor, sem nenhuma anotação manual; um comparativo controlado de três níveis de custo de segmentação (modelo de fundação, redes leves em três escalas e pipeline clássico calibrado) sob a mesma referência; a caracterização das séries temporais de área foliar projetada em crescimento, murcha e reidratação como variável de monitoramento; e o registro fundamentado das decisões de engenharia, incluindo a rejeição do índice Excess Green no ambiente estudado e os critérios explícitos de escolha de modelo para implantação.
O restante do artigo está organizado da seguinte forma. A seção 2 fundamenta os quatro pilares do trabalho: modelos de fundação de segmentação, destilação e pseudorrotulagem, segmentação leve de vegetação e monitoramento de alface por imagem com computação de borda. A seção 3 descreve o cultivo, a aquisição das imagens, os três níveis de segmentação e o protocolo experimental. A seção 4 apresenta os resultados da pseudorrotulagem, do piloto comparativo, das séries temporais e do benchmark das redes. A seção 5 discute os achados à luz da literatura e declara as limitações, e a seção 6 conclui e aponta os desdobramentos, em particular a calibração área-massa com pesagens sincronizadas como próxima fase do projeto.